Quem leu os meus posts neste blog sabe que nunca fui um fervoroso defensor de JJ. Respeito quem seja. Respeito aqueles que se empolgam com o futebol ofensivo (e, diria eu, muitas vezes, irresponsável) do Benfica. Respeito aqueles que, com medo do regresso de um passado não muito distante, preferem a continuação de JJ do que uma mudança. Respeito outras opiniões, no entanto, analiso as coisas de forma distinta.
Em primeiro lugar, devo começar por referir que também eu me entusiasmei neste final de época. Resisti fortemente durante a época. Estava escaldado das últimas temporadas. No entanto, era impossível resistir a ficar entusiasmado. Há duas semanas, o Benfica tinha 4 pontos de avanço no campeonato, no qual restavam dois jogos em casa e uma visita ao Ladrão, e estava nas finais da Liga Europa e da Taça de Portugal. Acima de tudo, não me passava pela cabeça perder o campeonato. Estava nas nossas mãos. No entanto, pelo segundo ano consecutivo o Benfica deixou fugir vários pontos de avanço em jogos consecutivos e entregou o título ao Porto de Vítor Pereira, um dos piores que me lembro. Concedo que também eu gosto de ver um Benfica ofensivo e muitas vezes empolgante. Devo dizer também que julgo que JJ tem evoluído como treinador e é hoje mais competente do que era quando foi campeão (por exemplo, já sabe que deve jogar com 3 médios fora de casa em jogos grandes e entendeu que não pode jogar em 3-1-6 quando precisa de ganhar o jogo). Estive em quase todos os jogos na Luz, fui a Amesterdão e dia 26 irei ao Jamor. Apoio incondicionalmente a equipa e nunca a assobio, independentemente de discordar variadíssimas vezes de JJ. Sou do Benfica independentemente de quem o comanda.
No entanto, para mim, o que tivemos nestes quatro anos não chega. 1 título em 4 anos não chega. Para aqueles que comparam os resultados de JJ com os resultados de treinadores anteriores respondo que devemos também comparar orçamentos, condições de trabalho e acima de tudo os recursos que cada um teve à sua disposição. É impossível comparar Salvio e Balboa, Matic e Yebda, Sidnei e Garay, Enzo e Nuno Assis, Gaitán e Amorim, Witsel e Bynia, Di Maria e Reyes, entre muitos outros. Arrisco dizer que nenhum titular dos anos que antecederam a vinda de JJ seria titular de caras nestes últimos 4 anos e muito poucos teriam lugar no banco. Para mim, o que mais importa é analisar o trabalho e os resultados de JJ. Os resultados são fracos: em quatro anos, apenas um título no campeonato e três Taças da Liga (vamos lá ver se podemos juntar uma Taça de Portugal). Mais ainda do que isso, para mim, o Porto não ganhou os últimos dois campeonatos. Nós é que os perdemos. Quando se ganha vantagem de 4 e 5 pontos em dois anos consecutivos, a culpa não pode ser apenas imputada ao árbitro, ao Kelvin, ao Maicon, ao Roderick, ao Roberto, à falta de sorte ou ao raio do azar. Quanto à final europeia, excelente, mas não façamos disso um feito épico. O Braga esteve lá há dois anos e os lagartos estiveram à porta no ano passado. Não vamos comparar orçamentos e qualidade de jogadores, certo? Não devemos esquecer também que a final da Liga Europa se deve, em parte, a uma incompreensível eliminação da Champions em favor do Celtic.
Que erros têm sido cometidos? Na minha opinião, o estilo de jogo do Benfica permite-nos ganhar 95% dos jogos do campeonato português tranquilamente. Um grande em Portugal tem que atacar muito e criar ocasiões de golo, pois esse volume de jogo ofensivo garante vitórias contra equipas mais fracas. No entanto, nos jogos mais complicados, o Benfica sente muitas dificuldades. Além de dificuldades em ganhar o meio campo, somos vítimas de ansiedade pelo golo e tremenda incapacidade para controlar o jogo. A nota artística, como JJ diz, é importante, mas sem vitórias perde todo o interesse. Há momentos do jogo em que o Benfica precisa de jogar com o resultado, mas falha tacticamente no posicionamento dos jogadores e na abordagem ao jogo. Vejam-se as últimas duas derrotas. Contra o Porto, a 2 minutos do fim, o Benfica tem apenas quatro jogadores no seu meio campo: Maxi, Roderick e os dois centrais. Contra o Chelsea, sofremos um contra ataque em período de descontos que deu lugar a um canto que acabou em golo, quando qualquer equipa madura estaria na expectativa pelo prolongamento para arriscar mais. Sim, tivemos falta de sorte, mas também fomos muito ingénuos, certo? Que raio, se ganhássemos ele era um génio da táctica, como perdemos foi azar? Além da falta de controlo do jogo, a ansiedade do Benfica reflecte-se em termos físicos. É tremendamente difícil uma equipa aguentar a alta rotação que o Benfica impõe no jogo ao longo de 50 e tal jogos. Depois existem outros erros que continuam a ser cometidos repetidamente. A defesa à zona nas bolas paradas é permissiva no 2º poste e cometem-se erros de casting por teimosia, como Roderick, Emerson ou Roberto, que se pagam bem caros.
Finalmente, além dos resultados, há a postura arrogante e prepotente de um treinador que passa a vida a falar dele próprio, desvaloriza a história do Benfica e chama a si todos os louros do pouco que conquistou. Para mim, benfiquista, menosprezarem a grandeza e história do meu clube faz-me imensa confusão. Tal como aconteceu com Camacho, essas declarações de JJ deixam-me furioso. A vontade indirectamente manifestada de abandonar o clube no final da Liga Europa deixou-me ainda mais desiludido.

Em duas décadas de pântano futebolístico (1994-2009) não sofri metade daquilo que tenho sofrido nos últimos dois anos. Durante aquela época negra , o Benfica só aguentava o verão, aquele espacinho entre a primeira e a quarta jornada, altura em que passávamos pelas Antas para a habitual sessão de sodomia com pitons. O Sporting não chegava ao Natal, não era? O meu Benfica pós-Artur Jorge não durava até ao verão de São Martinho. As castanhas já vinham com um encolher de ombros. Não havia sofrimento, havia resignação. O sofrimento implica falhar num momento de decisão. E nós não tínhamos momentos de decisão, éramos um clube de loseiros, habituados a ver os momentos de decisão dos outros. Agora, as coisas são diferentes. Estas duas épocas estão a doer, porque tivemos o chupa-chupa na mão, porque julgámos que a miúda gira estava mesmo a olhar para nós e, afinal, estava a olhar para o pintas do lado.
"O que fazer? O que dizer?", perguntavam anteontem algumas sms de amigos. Bom, já pensei em entrar em negação, já pensei em ser do Beleneses ou da Académica para ver futebol na anémica posição papai-mamãe, já pensei em desligar-me da bola, já pensei em seguir o conselho da minha mulher, isso é só futebol, ó doente, já pensei em não ir ao estádio, para quê sofrer, porra?, já pensei em não seguir os jogos pela tv, até poupávamos dinheiro, ouviste?, já pensei, no fundo, em cortar o cordão umbilical com o meu relógio biológico . "Para quê sofrer com isto?" parece ser uma pergunta tão lógica, tão certa, tão cartesiana, não é? Pois, mas acho que vou fazer exactamente o contrário, acho que vou voltar a ser sócio do Benfica. A solução é apanhar os pedaços do velho cartão de sócio que rasguei aquando do advento de Vale e Azevedo, a solução é não pensar no número de pacotes de fraldas que posso comprar com 120 euros. Sim, depois de quarta-feira, a única resposta aceitável passa por regressar ao rebanho oficial. O sacaninha do Bélla Guttman não se pode ficar a rir.
Este texto tem de ser escrito agora, ainda durante o período de convalescença do jogo do Dragão e antes de sabermos o resultado da final de amanhã, porque me parece que a avaliação que os benfiquistas andam a fazer de Jorge Jesus está injustamente dependente daquele golo. Se aquele golo não tivesse acontecido - e este é um cenário que encontra naquilo que se passou durante dos 90 minutos anteriores uma base suficientemente sólida para que o levemos a sério - a entrada do Roderick aos 71 minutos seria esquecida para todo o sempre. Jesus teve azar. Ficou a três minutos de ser consagrado como o mestre da táctica, como o treinador que anulou o Porto no Dragão. O Porto, lembremos, que não perde para o campeonato há 71 jogos. Convém lembrar contra quem - e o quê - lutamos todos os anos.
Vale a pena, por isso, olhar para os números destas quatro épocas de Jesus, e compará-las, por exemplo, com as quatro épocas anteriores do Benfica.
2009 / 2010 - Campeão, com 4 empates e 2 derrotas. 78 golos marcados, 20 sofridos.
2010 / 2011 - 2º classificado, com 3 empates e 7 derrotas. 61 golos marcados, 31 sofridos.
2011 / 2012 - 2º classificado, com 6 empates e 3 derrotas. 66 golos marcados, 27 sofridos.
2012 / 2013 - Pior cenário: 2º classificado, com 5 empates e 1 derrota. 74 golos marcados, 19 sofridos.
A isto soma-se uma meia-final da Liga Europa (perdida para o Braga, na época horribilis 2010/2011), uns quartos-de-final da Liga dos Campeões, e uma final da Liga Europa (primeira final europeia desde 1991).
Antes de Jesus chegar, as coisas corriam deste modo ao Benfica:
2008 / 2009 - 3º classificado, com 8 empates e 5 derrotas. 54 golos marcados, 32 sofridos.
2007 / 2008 - 4º classificado, com 13 empates e 4 derrotas. 45 golos marcados, 21 sofridos.
2006 / 2007 - 3º classificado, com 7 empates e 3 derrotas. 55 golos marcados, 20 sofridos.
2005 / 2006 - 3º classificado, com 7 empates e 7 derrotas. 51 golos marcados, 29 sofridos.
Ou seja: com Jesus, o rendimento do Benfica subiu visivelmente. Melhorou também, e de que maneira, o futebol que a equipa joga. Com Jesus, as vendas principais de jogadores totalizaram 175 milhões de euros (David Luiz, Ramires, Di Maria, Fábio Coentrão, Javi Garcia e Witsel). E mesmo a época horrível de 2010 / 2011, com 3 derrotas nas primeiras 4 jornadas do campeonato, não se compara com o Benfica que Jesus herdou. Acreditar que a substituição de Jesus irá contribuir para que o Benfica melhore os resultados desportivos não é razoável.
Percebo a frustração de muitos, que também é a minha. Ficar tão perto de ganhar tanta coisa sem o concretizar custa. Mas eu não quero voltar a ter um Benfica que deixa de despertar qualquer tipo de emoção em Novembro. Não quero voltar a precisar das derrotas dos outros para ter algum bálsamo desportivo. Não quero voltar a fazer as figuras que fez ontem, por exemplo, Eduardo Barroso na televisão, enquanto salivava com a perspectiva de o Benfica não ganhar nada esta época. Porque há uma coisa que eu sei: essa gente quer Jesus fora do Benfica o quanto antes. Como eu os percebo. É gente com memória.
Complicaram a vossa vida na segunda-feira. Logo à noite não vai ser fácil. Terão de aguentar provocações, suportar o Proença e ser fortes para reagirem às contrariedades. No entanto, só têm um caminho possível: sair de pé do antro da corrupção e com o campeonato nas mãos. Não vos peço um empate. Peço-vos a vitória. Peço-vos já o campeonato. Eu e muitos outros esperamo-vos no Marquês. Não faltem!

Amanha é o jogo do título. O Benfica vai ao Porto decidir o campeonato. Podíamos ter ganho ao Estoril e ir ao norte com uma vantagem mais confortável. Mais isso significaria que podíamos perder e vencer o campeonato. Não teria tanta piada. Ser do Benfica é ir ao pior campo possível para ser campeão. Ir a Camp Nou, ao Bernabéu ou a outro estádio qualquer seria um passeio comparado com o que vai acontecer amanhã.
Amanhã, nas Antas, o Benfica vais ser campeão. Vão ser os 90 minutos mais dignos de um titulo e só assim poderia ser ''à Benfica''.
Amanhã, Benfiquistas vão ao Porto. Os outros vão estar em casa, no café, na tasca ou no restaurante. Com os amigos, com a família ou até mesmo sozinhos. Mas amanhã, vamos todos gritar. Ficar sem ar com um ataque perigoso dos andrades, celebrar uma defesa do Artur como se fosse um golo, saltar da cadeira com uma corrida do Gaitán, dizer para ele passar a bola que o Cardozo já está na área à espera e finalmente, pular aos gritos quando a bola for amparada pelas redes da baliza do adversário. E talvez sofrer se eles marcarem primeiro. Ou se empatarem a meio do jogo e mais um golo a virar o resultado. Mas que faltem cinco minutos e um golo para sermos campeões, eu e todos nós acreditaremos.
Amanhã quando acabarmos o jogo, seremos campeões. O Artur terá feito defesas impossíveis, o Maxi terá corrida e batalhado como se tivesse um pulmão a mais, o Luisão será a voz da liderança, aguentando a equipa. O Garay, limpo e cheio de classe, evitará golos, passes e perigos outros, o Melgarejo vai jogar bem. Um pouco mais à frente, Matic será um polvo com mais de oito pernas, o Enzo esse sacana com cara de menino bem comportado, não deixará pedra sobre pedra no relvado azul. Os extremos Gaitan e Salvio, vai correr para trás e para a frente, em fintas e cruzamentos, em guerra sob a forma de corrida. À frente, o bom mal-amado Cardozo vai marcar. E os outros que poderão jogar, farão os melhores minutos das suas carreiras.
É assim que imagino o jogo. É assim que quero que seja o jogo. Principalmente, quero que eles me orgulhem. A mim e aos restantes adeptos. E à camisola que envergam.
Amanhã será mais que um jogo, mais que um desporto. Amanhã o país pára para ver 22 homens a correr atrás de uma bola. E não é bom?
Só surpreendeu os mais distraídos. O suspeito do costume, o grande cliente da fruta foi chamado a colaborar no próximo sábado. Agora são 11 contra 14. Temos hipótese? Vai ser difícil, muito difícil. Teremos que ser muito melhores do que os andrades.
Acho impressionante esta nomeação depois do histórico que existe de arbitragens do Benfica por este sujeito. Acho ainda mais impressionante o silêncio dos dirigentes do Benfica. Desde o jogo da primeira volta que se sabia que nos esperava no antro da corrupção e ninguém abriu a boca contra o circo que começou nesse dia a ser montado. O Porto jogou baixo, como sempre, e nós, anjinhos, deixámos que tudo isto fosse cozinhado. Agora resta-nos comer a refeição que nos prepararam.
Não consigo imaginar uma arbitragem imparcial no sábado o que significa que vamos começar o jogo em desvantagem, grande desvantagem. Esperemos que os nossos jogadores sejam valentes. Esperemos um dia em grande. Força Benfica!
Como era previsível, alguns companheiros escribas não gostaram do meu post. O Benfica é de todos e de cada um. Burros e supostamente inteligentes. De alguns que se incomodam com um dos órgãos de informação do clube ser a favor da liberdade e do pluralismo, numa edição na semana do 25 de Abril, e de outros que ficam orgulhosos com isso. É assim a vida.
Futebol não é, para mim, só futebol. Por exemplo, eu prefiro ver um jogo no Topo Sul e aplaudir do que estar na tribuna e abanar as jóias. É uma marca de classe. A historia do futebol e de vários clubes está repleta de momentos de intervenção política. O desporto, no caso o futebol, é vida. E vida inclui política. Há vários clubes e atletas espalhados pelo mundo que o afirmam. Do fascista Di Canio ao comunista Lucarelli. Podemos fazer de conta que não e, assim, imaginar que os gestos de John Carlos e Tommie Smith nos Jogos Olímpicos de 1968 não tiveram qualquer significado. Ou a Académica na final da Taça de Portugal. Ou a monumental assobiadela a Durão Barroso na inauguração da nova Catedral.
Dispenso a sociologia e retribuo o elogio de várias afirmações proferidas pelo Bruno.
E vamos lá ganhar no Dragão.
De cada vez que o Benfica ganha há pelo menos uma dúzia de portistas e sportinguistas que se licenciam em Sociologia. Basta o Benfica estar na iminência de conquistar qualquer coisa e alguns adeptos dos rivais desdobram-se em tentativas furiosas de não só pôr em causa o mérito do Benfica (o que aceito e vejo com alguma normalidade porque isto é o futebol português e nós também quase sempre olhamos mais para fora do que para dentro quando falhamos) mas de estabelecer correlações sociológicas entre o benfiquismo e o estado do país. Dizem, naquele estilo que eles pensam ser irónico mas que não passa de uma crise de fígado, que agora é que os problemas do país ficam resolvidos, que pode aumentar a taxa de desemprego, que o Governo pode anunciar cortes. Outros filosofam sobre a relação dos benfiquistas com o próprio clube, que dizem messiânica, o que é verdade (embora espírito de missão seja uma ideia mais acertada), mas que se aplica a qualquer grande clube, que tem sempre na sua matriz uma dimensão interior de missão que é o motor de declarações e lemas como “Somos Porto”, “Mais que um clube”, “You’ll Never Walk Alone”, “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória” e “E Pluribus Unum” ou um “Benfica à Benfica”. É essa matriz, que os adeptos vivem como destino do clube, no sentido de ser algo que ultrapassa a conjuntura histórica, que os leva a encarar cada sucesso como o natural cumprimento desse destino e cada fracasso como um sintoma de que a verdadeira identidade do clube não está a ser respeitada (por dirigentes, treinadores ou atletas) ou está a ser atacada (por obscuras forças externas). Ou seja, se ganhamos, estamos a ser o que somos, se perdemos, alguém, de dentro ou de fora, está a corromper a natureza do clube, a sua identidade, o seu destino. É neste ambiente quase religioso que os adeptos falam do “glorioso”, da “catedral”, do passado tornado mito. É esta a relação, a traço grosso, do adepto benfiquista com o seu clube e os adeptos rivais têm tanto a ver com essa relação íntima como eu tenho a ver com os nomes que os meus vizinhos trocam na intimidade, os sítios onde comemoram os aniversários de casamento, os momentos que reforçam essa comunhão que é a deles e sobre a qual os comentários que eu possa fazer põem-me na triste e infecunda posição dos que estão de fora e querem rachar lenha. Fora disto, qualquer extrapolação sociológica sobre o benfiquismo e o atraso do país é um exercício patético que deriva totalmente da angústia da derrota e que nada deve à racionalidade. Entre os milhões de adeptos benfiquistas (como entre os de qualquer outro clube) há ricos e pobres, putas e os seus filhos, garanhões e tímidos, desempregados e milionários, bandidos e polícias, políticos e gente séria. Há pessoas que abraço naquele estádio quando ganhamos com as quais nada quero ter a ver fora dali. Enquanto ali estamos somos benfiquistas, fora dali somos cidadãos cumpridores e incumpridores, bons e maus pais, exemplares maridos ou nem por isso. Lá dentro, não temos partido, classe ou religião. Cor, só o vermelho. Por estes motivos, também me custou ler neste blog um post sectário sobre o Benfica ser o clube do povo, um post que rejubilava com a pretensa azia de outros benfiquistas com a capa do jornal do clube. Esse tipo de afirmações burras é a negação da essência do meu Benfica: um clube que mais do que do povo é um clube de todos, um clube inclusivo e não um clube exclusivo. O futebol, sabemos bem, é um fenómeno sociológico que dispensa a sociologia de bancada.
É hoje que vamos carimbar o passaporte para a final. Eu acredito. Eu vou lá estar. Carrega Benfica!
Falta pouco para sermos bem sucedidos, mas os jogos que faltam vão ser os mais difíceis da época. Os jogadores começam a apresentar sinais de evidente cansaço, temos adversários complicados pela frente (a começar já amanhã, pelo Marítimo), uma eliminatória para virar na quinta-feira, uma viagem até ao antro da corrupção na penúltima jornada da Liga 2012/13 e, pelo menos, uma final para disputar. A época começou bem, foi correndo muito bem (excepção à participação na Champions), mas o que importa é que termine ainda melhor. É como uma etapa de uma prova de ciclismo. Chegámos à ponta final da etapa isolados, temos maiores hipóteses de vencer do que aqueles que nos perseguem, mas a ponta final vai ser uma subida bem íngreme e com muitas curvas. Além disso, tal como numa prova de ciclismo, temos que estar atentos àqueles tipos que gostam de se atravessar à frente do ciclista e ameaçar deitar o seu esforço por terra. Neste caso, o tipo que nos pode empurrar é enviado por aqueles que nos perseguem e equipar-se-á de preto. Nós sabemos que eles vão aparecer. Não podemos evitar. Temos apenas que conseguir resistir aos empurrões e mantermo-nos firmes até cruzarmos a meta.
As pressões surgem de todo o lado. Os andrades conseguem ter a lata de falar de arbitragens. Quais virgens ofendidas, aqueles que corromperam árbitros e compraram campeonatos pensam que já ninguém se lembra de nada e por isso insinuam que outros fazem aquilo que eles fizeram. Os lagartos, lá bem em baixo, no 10º lugar da Liga, arranjaram uma tempestade com a arbitragem do último domingo. Todos sabíamos que era o jogo do ano para eles e que fariam tudo para entregar o título à casa mãe. Não criaram uma ocasião de golo, sofreram dois golos limpos, mas passaram uma semana inteira a falar de capelas e igrejas. Meus caros, vejam e revejam a jogada do 2º golo. Foram poucos segundos, mas deu para ver naquela jogada 37 pontos de distância. É isso que nos separa. O resto é conversa de calimero.
A campanha está montada. Todos esperam que amanhã possamos perder pontos e os árbitros já foram chamados a colaborarem. Amanhã, frente ao Marítimo, acredito que teremos o primeiro obstáculo extra. Temos de resistir a esse primeiro empurrão. Não podemos cair. É importante vencer amanhã, pois daqui a 15 dias aparecerá o último grande obstáculo. A esse obstáculo será muito difícil escapar. Aquela subida de inclinação bem elevada costuma ter um indivíduo chamado Proença que não nos larga enquanto não nos atira ao chão. Temos que ter alguma margem para aguentar esse valente empurrão. Não queremos que, mais uma vez, uma Liga seja decidida por esse indivíduo. Temos que evitar que ele seja bi-campeão. A meta está próxima e a equipa está forte para aguentar uns empurrões. Vamos lá ser campeões!
PS: Na Liga Europa, faltam 90 minutos para voltarmos a uma final europeia. Estamos em desvantagem, mas somos capazes de virar a eliminatória na quinta-feira. Carrega Benfica!
Eu percebo que a edição desta semana do nosso jornal vá fazer muitas comichões, mesmo a algumas pessoas que escrevem neste blog.
Agora os jogos são sempre à noite, mas continuo a ir para o estádio a meio da tarde. Reflexos do passado. E a meio da tarde, às portas da Luz, um jogo grande é aquilo que sempre foi: um pequeno laboratório de Portugal. Perco a conta aos diferentes sotaques. Três só do Alentejo: o do Alentejo aquático, o meu, o da malta do Alto, estilo Évora, essa cidade sub-beirã, e aquela coisa que se fala em Niza. Se os ouvidos estão entretidos com sotaques, os olhos reparam no maior mistério da bola desde os tempos da almofadinha-pra-bola: as mulheres que se produzem para ir ver um jogo de futebol. Estão ali, num domingo à tarde, entre cerveja, coirato e asneiredo, mas estão vestidas e calçadas como se fossem para a discoteca de sábado à noite. Eu não me importo com o espectáculo, mas fico fascinado com o desarranjo teatral entre o cenário e as personagens. É como se personagens de uma tragédia tivessem caído numa comédia.
Portas abertas, subo até ao lugar, até ao parceiro de bola, o meu barbeiro, até à discussão sobre as tácticas da equipa, os gestos a fazer à claque rival, a consistência das queijadinhas de Sintra (o lanche eterno do Estádio da Luz). Enquanto falamos, chovem outras dissonâncias teatrais, como aquela senhora que sobe todas as escadinhas do terceiro anel com saltos de 10 cm. Ali está um titã, um portento de força, uma carregadora de piano que daria muito jeito ao nosso meio-campo defensivo. E, de repente, sem saltos altos, a harmonia chega: uma família inteira, dez ao todo, avó incluída, senta-se à minha beira. Imediatamente ao meu lado, o caçula da família, não mais do que dez anos. O que coloca um dilema: aqueles ouvidos aguentam palavras cabeludas? Posso comentar a vida profissional da mãe do árbitro ao lado de uma criança? O dilema não aguenta cinco minutos de jogo. Lamento, mas bola sem asneiredo é como missa sem reza. Do mal, o menos: o menino fica a saber palavras novas e, acima de tudo, novas combinações de palavras.
Ao intervalo, duas mudanças: Gaitán começa a jogar e a avó substitui o neto na cadeira ao meu lado. E, atenção, a senhora é mesmo uma avó, não é uma daquelas varinas encarnadas que fazem de mim um menino no campeonato do asneiredo. Portanto, contenho a verve de índio do terceiro anel. Não faz mal, porque Gaitán resolve sossegar-me com aquele golo. O Estádio implode e segue-se uma espécie de Paz de Cristo futebolística. A meio da missa, como sabem, temos de dar beijinhos e apertos de mão às pessoas que nos rodeiam. Ali é igual: tocamos, abraçamos e até beijamos gente que nunca vimos na vida. O Estádio da Luz não é a Catedral por causa da monumentalidade. Não é a arquitectura que faz a fé. A Catedral é a Catedral por causa desta Paz de Cristo em chuteiras. Benfiquista que não abraça não é benfiquista. À direita, abracei o meu barbeiro e um angolano, por cima comunguei com o pernil de três jovens em leggings, e à esquerda abracei aquela avó com um prazo de validade de 45 minutos. E foi bom sentir aquele buço benfiquista. Obrigado, Nico.
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