Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
Veloso & Grécia
por Henrique Raposo, Qua 29/Fev/12

O Veloso é meu vizinho. Eu já o vi, pelo menos, três vezes no café do senhor Jorge. Para a minha demência benfiquista, isto chega para considerar como vizinho o grande capitão dos anos 80. E confesso ainda que os recontros com este vizinho honorário têm acentuado o meu reacionarismo pró-anos 80. A década de 80 é mesmo uma espécie de pátria mental, sendo que eu serei provavelmente o primeiro cidadão desta nostalgia ‘oitentista’. Ao ver este Veloso-sem-bigode, sinto uma saudade terminal por aquele Portugal de bigodes sujos com caldo verde, sinto falta daquela nação que, bem ou mal, ainda era soberana e livre destas maçadas gregas e europeístas. Era tudo mais simples em 1983. Éramos uma naçãozinha semi-africana, mas tínhamos os pés assentes no chão, tínhamos o nosso escudo, a nossa fruta com bicho, a nossa soberania. E os nossos jogadores ainda dominavam o Benfica.

Em 1983, o Benfica tinha Chalana, o génio do Barreiro; agora tem Gaitán, um sujeito de Buenos Aires em trânsito para Manchester. É tudo mais fluído, mais imprevisível. Não há raízes, não há âncoras, não há continuidades, não há maçã reineta com bicho. Nos gloriosos anos 80, não éramos ‘europeus’, sim senhora, mas éramos livres. O nosso tempo não era esta coisa paranóide. Não havia cá telejornais 24 horas por dias. Só havia um telejornal que começava às sete e meia e que acabava às oito, porque às oito e picos começava a novela. Ante a agitação de 2012, é impossível não sentir uma insuperável ternura por aquele tempo em que havia espaço para o Totobola antes da Lotação Esgotada. Era um tempo de continuidades e, não por acaso, havia as locutoras de continuidade. Que saudades de Isabel Bahia.

Tudo bem? Tudo mal. O problema da nostalgia é que a dita é uma droga poderosa. Tão poderosa como a utopia. É fácil ficarmos inebriados por um passado perfeito, um passado composto por um Benfica com jogadores portugueses, por prateleiras que apenas tinham fruta orgulhosamente nacional (e esburacada) e por uma nação sem laços com estas complicações europeias. Como todas as utopias reacionárias, o meu breve namoro com o tempo do Veloso inventou um passado perfeito que nunca existiu. É bom lembrar que 1983 foi mais duro que 2011. Além disso, a maçã esburacada não era exportável, e agora exportamos maçãs não-esburacadas, entre outras coisas. A agitação trazida pela UE tornou-nos mais fortes, mais musculados. Chalana era bom, mas era um Ronaldo sem trabalho de ginásio, um Figo sem competitividade europeia. A Europa fez-nos bem: o Veloso-com-bigode que me perdoe.

 

Em estéreo com o Expresso

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