Segunda-feira, 24 de Março de 2014
Chalana - Queria Ser Pássaro
por Bruno Vieira Amaral, Seg 24/Mar/14

«Torpor de fim de tarde. A angústia de se saber que está na hora de ir para casa quando ainda se quer tentar a última finta, outro golo, naquela rua em que só há um candeeiro e mal dá para ver a bola. “Já são horas, Fernando. Olha que vem aí o feijão-verde.” Ele não ouve. Continua. Já não há mais ninguém. Só ele e a bola, cúmplices, a luz débil do candeeiro, um homem que, antes de entrar em casa, bate com as botas no tapete, assobia, um cão, o cheiro a lodo, o enxofre das fábricas, finta um adversário que não está lá, e depois outro, atira para uma baliza que são duas pedras desiguais no chão, e será sempre assim, mesmo anos mais tarde, naquele fim de tarde mediterrânico, em Marselha, uma maré de calor e saudade sobe do porto e vence as bancadas, silencia as vozes, apaga os adversários, está outra vez sozinho, com a bola, nas ruas do Lavradio, noutro crepúsculo que é sempre o mesmo, num estádio que é sempre uma estreita faixa de pó numa vila operária, sob os holofotes que iluminam tão pouco como aquele candeeiro mortiço da sua infância. Os adversários não estão lá. Ele, na verdade, também não está lá. Está sempre noutro lugar, mais à frente, mais longe.»

 

Texto publicado na revista 2 do jornal Público. Ler aqui.

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Segunda-feira, 19 de Agosto de 2013
Fim?
por Bruno Vieira Amaral, Seg 19/Ago/13

Depois do jogo com o Guimarães, o último que fizemos na época passada, escrevi isto. Jesus só podia ter continuado se houvesse uma revolução total no plantel, com a saída de todos os jogadores fulcrais do ano passado. Como é óbvio, essa solução seria um disparate. Eu sei que Luís Filipe Vieira tinha dado a palavra a Jesus, mas como alguém disse num filme, "it's not your word that counts, it's who you give it to", e depois das três famigeradas derrotas que nos tiraram três títulos, Jesus já não era o mesmo homem a quem o presidente dera a palavra, era um homem derrotado perante os adeptos, os jogadores e - o pior para um homem como Jesus - perante si mesmo. Foi este o sentido das suas palavras após a derrota com o Chelsea, quando disse que talvez tivesse de repensar muita coisa. Jesus abriu o flanco e Vieira, se os doze anos que está à frente do Benfica lhe tivessem ensinado alguma coisa sobre gerir um grupo e liderar homens, teria aproveitado a oportunidade. Não aproveitou, agarrado à velha história do despedimento de Fernando Santos. Vieira ainda não percebeu que o erro não foi ter mandado Fernando Santos embora (para mim, o erro foi tê-lo contratado, mas pronto) mas tê-lo mandado embora após a primeira jornada quando nem sequer devia ter deixado que o treinador começasse a época. São estes equívocos que Vieira ainda não sabe ultrapassar que estão na génese das derrotas do Benfica. A conclusão é simples: por muito que Vieira tenha sido importante na recuperação do Benfica, quando Jesus cair, ele também terá de cair.

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Segunda-feira, 27 de Maio de 2013
Fim
por Bruno Vieira Amaral, Seg 27/Mai/13

Depois de compreensivelmente ajoelhar-se no Dragão, ontem chorou antes do fim do jogo. Por muito que se tente dourar a pílula, Jesus mostrou que já não tem condições emocionais para ser líder de uma equipa como o Benfica. Os jogadores não podem olhar para o banco e ver o treinador a chorar. Uma vitória clara no jogo de ontem permitiria preparar a próxima época com as nuvens negras da depressão mais dissipadas. Assim, os jogadores vão de férias completamente arrasados sabendo que quando regressarem vão encontrar o mesmo homem que, em três momentos decisivos, não os conseguiu guiar à glória. Eu sei que Jorge Jesus está de rastos mas o que dizer de jogadores como Cardozo e Luisão, há tantos anos no clube e com tão poucos troféus para exibir? Sentirão eles que para o ano é que é? Para mim até pode ser, mas não com Jesus. Fim.

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Sábado, 4 de Maio de 2013
Sociologia de bancada
por Bruno Vieira Amaral, Sab 04/Mai/13

De cada vez que o Benfica ganha há pelo menos uma dúzia de portistas e sportinguistas que se licenciam em Sociologia. Basta o Benfica estar na iminência de conquistar qualquer coisa e alguns adeptos dos rivais desdobram-se em tentativas furiosas de não só pôr em causa o mérito do Benfica (o que aceito e vejo com alguma normalidade porque isto é o futebol português e nós também quase sempre olhamos mais para fora do que para dentro quando falhamos) mas de estabelecer correlações sociológicas entre o benfiquismo e o estado do país. Dizem, naquele estilo que eles pensam ser irónico mas que não passa de uma crise de fígado, que agora é que os problemas do país ficam resolvidos, que pode aumentar a taxa de desemprego, que o Governo pode anunciar cortes. Outros filosofam sobre a relação dos benfiquistas com o próprio clube, que dizem messiânica, o que é verdade (embora espírito de missão seja uma ideia mais acertada), mas que se aplica a qualquer grande clube, que tem sempre na sua matriz uma dimensão interior de missão que é o motor de declarações e lemas como “Somos Porto”, “Mais que um clube”, “You’ll Never Walk Alone”, “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória” e “E Pluribus Unum” ou um “Benfica à Benfica”. É essa matriz, que os adeptos vivem como destino do clube, no sentido de ser algo que ultrapassa a conjuntura histórica, que os leva a encarar cada sucesso como o natural cumprimento desse destino e cada fracasso como um sintoma de que a verdadeira identidade do clube não está a ser respeitada (por dirigentes, treinadores ou atletas) ou está a ser atacada (por obscuras forças externas). Ou seja, se ganhamos, estamos a ser o que somos, se perdemos, alguém, de dentro ou de fora, está a corromper a natureza do clube, a sua identidade, o seu destino. É neste ambiente quase religioso que os adeptos falam do “glorioso”, da “catedral”, do passado tornado mito. É esta a relação, a traço grosso, do adepto benfiquista com o seu clube e os adeptos rivais têm tanto a ver com essa relação íntima como eu tenho a ver com os nomes que os meus vizinhos trocam na intimidade, os sítios onde comemoram os aniversários de casamento, os momentos que reforçam essa comunhão que é a deles e sobre a qual os comentários que eu possa fazer põem-me na triste e infecunda posição dos que estão de fora e querem rachar lenha. Fora disto, qualquer extrapolação sociológica sobre o benfiquismo e o atraso do país é um exercício patético que deriva totalmente da angústia da derrota e que nada deve à racionalidade. Entre os milhões de adeptos benfiquistas (como entre os de qualquer outro clube) há ricos e pobres, putas e os seus filhos, garanhões e tímidos, desempregados e milionários, bandidos e polícias, políticos e gente séria. Há pessoas que abraço naquele estádio quando ganhamos com as quais nada quero ter a ver fora dali. Enquanto ali estamos somos benfiquistas, fora dali somos cidadãos cumpridores e incumpridores, bons e maus pais, exemplares maridos ou nem por isso. Lá dentro, não temos partido, classe ou religião. Cor, só o vermelho. Por estes motivos, também me custou ler neste blog um post sectário sobre o Benfica ser o clube do povo, um post que rejubilava com a pretensa azia de outros benfiquistas com a capa do jornal do clube. Esse tipo de afirmações burras é a negação da essência do meu Benfica: um clube que mais do que do povo é um clube de todos, um clube inclusivo e não um clube exclusivo. O futebol, sabemos bem, é um fenómeno sociológico que dispensa a sociologia de bancada.

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Segunda-feira, 1 de Abril de 2013
No estádio
por Bruno Vieira Amaral, Seg 01/Abr/13

Sou um benfiquista de sofá. Preguiçoso. Volátil. Por vezes nem sequer vejo os jogos na televisão. Sofro muito. Outra razão para não ir ao estádio é, digamos, demográfica. Nós somos mais de 6 milhões e o estádio só tem capacidade para 65 mil. Não quero arranjar chatices com ninguém e há pessoas que gostam mesmo de ir ao estádio, gostam de ver a bola ao vivo, e assobiar ao vivo, mostrar lenços brancos ao vivo e berrar insultos que o árbitro não ouve (“o Pinto da Costa está a dormir com a tua mulher”, por exemplo). Como normalmente jogamos tarde e a más horas, seja ao sábado ou ao domingo, por conveniência do nosso querido parceiro televisivo, adeptos bissextos, como eu, não têm incentivos para ir ao estádio. Mas esta semana, semana santa, fui ao estádio da Luz. Não foi por estarmos na mó de cima. Foi por altruísmo. Foi a primeira vez que levei o meu filho ao estádio. E valeu a pena. Não só por causa dos seis golos, mas por tudo o resto. A antecipação, o caminho para o estádio, o entusiasmo infantil de quem, nas palavras dele, dava “os primeiros passos no estádio da Luz”, depois a dizer-me, assim que se sentou na cadeira, que “isto é muito melhor do que na televisão”, o ambiente norte-coreano de emoção quando se canta o hino, o voo da Vitória, o Cardozo que estava ali a aquecer, a euforia colectiva com a entrada do Aimar em campo – prova que os adeptos benfiquistas são uns sentimentais – o cachorro que o meu filho devorou ao intervalo, o pedido dele para ficarmos no estádio até ao último minuto, o caminho de regresso a casa. Voltámos cansados e felizes como só se pode ficar com esta coisa tão arcaica, tão simples e tão bela que é um jogo da bola do nosso (meu e do meu filho) Benfica.

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Sexta-feira, 15 de Março de 2013
Vergonha
por Bruno Vieira Amaral, Sex 15/Mar/13

Ontem, o Benfica conquistou um lugar nos quartos-de-final de uma competição europeia jogando com o Jardel, o Roderick e o André Almeida, ganhando os dois jogos como já acontecera na eliminatória contra o 3º classificado do campeonato alemão. Quem ouvisse os comentadores lagartos Ribeiro Cristóvão e Rui Santos e, mais tarde, aquela coisa do Jorge Baptista pensaria que o Benfica tinha perdido a eliminatória. Diziam que o Bordéus é uma equipa fraquíssima e que não constituía um verdadeiro teste. O Baptista até chegou a dizer que o Benfica este ano não ganhou ao Porto, só ganhou a um Sporting desfalcadíssimo e a um Braga em curva descendente. Sabe tão bem vê-los a espumar.

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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013
Aquela noite
por Bruno Vieira Amaral, Qui 14/Fev/13

Recordo a noite, no Ulrich Haberland, do mais glorioso empate da história do Benfica. Duas semanas antes, empate em casa que, se a memória não me falha, mereceu o título “Luz Amarela” na capa da extinta Gazeta dos Desportos. Depois, aconteceu aquilo. Ao intervalo perdíamos por 1-0 (golo de Ulf Kirsten). No início da segunda parte, 2-0, pelo veterano Schuster. Lembro-me de ter pensado que, a partir daquele momento, bastava-nos um empate. O optimismo é certamente uma perturbação futebolístico-psiquiátrica. Logo a seguir, incrivelmente, Abel Xavier marca o golo de uma vida, João Pinto empata, Kulkov põe-nos a ganhar. Assunto arrumado. Agora eles tinham de marcar dois. Impossível? Não. Naquele ano, a defesa do Benfica parecia, por vezes, uma anedota. Neno, William, Helder, Abel Xavier e Schwarz (terá jogado o Kenedy neste jogo?) tinham intervalos de humor burlesco. Apanhámos 5 do Setúbal, empatámos a 3 nas Antas, levámos mais três em Alvalade (sim, metade da dose que lhes aplicámos mercê do génio táctico do Queirós). Um tal de Paulo Sérgio, que seria chamado para o escrete para gáudio da turma do Casseta e Planeta que o comparava a uma bota, rebentou a nossa débil resistência. Só que tínhamos aquele meio-campo, aquele meio-campo, aquele meio-campo e Kulkov e Rui Costa eram aquele meio-campo. Kulkov foi dos jogadores mais admiráveis do Benfica. Jogava em toques de veludo, com a lucidez diagonal que só se atinge com vodka e noitadas. De Rui Costa não preciso dizer nada. A estes dois juntavam-se Isaías, um bombardeiro tropical, um João Pinto na melhor forma de sempre, Vítor Paneira, glória da ala direita onde passava pelos adversários com requintes de toureiro, e um Iuran que não era grande goleador mas era exímio na arte contra-intuitiva de receber a bola de costas para a baliza. Ah, e também havia um tipo sentado no banco mas que deve ter percebido tanto do que se estava a passar como qualquer um dos milhões de adeptos que viram o jogo. Era o Toni, esse mago acidental que nos levou a uma final da Taça dos Campeões com Tueba e Hajry na equipa. A noite de Leverkusen foi a mais bela noite do meu Benfica europeu.

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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013
O que importa
por Bruno Vieira Amaral, Ter 15/Jan/13

O golo de Matic não foi uma obra de arte. As obras de arte são bens transaccionáveis, orgulho de museus e coleccionadores.  Joe Berardo, por exemplo, tem uma data delas. O golo de Matic foi uma manifestação pura de beleza que cada um de nós há-de guardar no cofre particular da memória. Não foi apenas um remate fantástico, que também foi, foi igualmente geometria, poesia e metafísica (já explico esta) em movimento, um movimento sobre o qual nem é lícito falar-se no pretérito porque, na sua perfeição, ainda está a acontecer. A parte da metafísica explica-se porque a corda emocional tocada por um golo destes no coração de um benfiquista é mais vibrátil do que a de um espectador neutro, já para não falar de um adepto da equipa adversária. Como no futebol não há justiça, o golo de Matic não valeu por dois, e isso é que seria justo. É a crueldade da matemática. Mas na matemática das emoções aquele golo, apesar de não nos ter dado a vitória, é um multiplicador de alegria. Saltei, gritei e, quando vi a repetição, fiquei especado a olhar para as imagens: que golo do caralho! E, então, sem que qualquer culpa lhe possa ser atribuída, pontapeei a cadeira.

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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013
O fantoche
por Bruno Vieira Amaral, Seg 14/Jan/13

Vê-se que o senhor Vítor Pereira não tem vocação para bruto, como um Paulinho Santos ou um guarda Abel, mas revela uma enorme vontade de ser bruto, de espumar como um bruto, de debitar a cartilha das Antas como um verdadeiro bruto. Como treinador é a mesma coisa. Isto sucede porque, não sendo naturalmente um bruto, chegando a exibir a fé que move montanhas e ajuda a ganhar campeonatos aos bons servidores de Deus e do seu representante na Terra, percebeu que tem de vestir o fato de bruto para receber a bênção dos seus superiores. Ninguém, de boa mente, poderá acusar o senhor Vítor Pereira do pecado do carisma, daquele magnetismo que parece aureolar os líderes de homens. Simplesmente, não o tem. É duvidoso, como se viu na célebre noite de Coimbra em que o Estado Maior das Antas teve de emprestar alguma autoridade ao seu treinador, que Vítor Pereira fosse capaz de comandar, sem contestação, um grupo de escuteiros. Eternamente agradecido pela protecção divina que o defende de si próprio e das suas incapacidades, o senhor Vítor Pereira tem de pagar com raiva e com aquele ódio simiesco ao Benfica sem os quais um adepto portista não tem direito de cidadania no reino cavernícola do dragão. Durante a semana que passou, a retórica do senhor Vítor Pereira excedeu claramente os limites do seu curriculum. A máscara de indignação e de raiva exibida na declaração no final do jogo, com a repetição de velhos mantras, como o de um suposto favoritismo do Benfica propalado pela Comunicação Social, o Grande Benfica (cuja grandeza, de facto, não é apreensível por um bruto, nem por um simulacro de bruto), serviu apenas para agradar ao chefe e esconder os seus vaticínios falhados. É verdade que ontem, mais uma vez, o Benfica entrou como é habitual contra o FC Porto: a perder antes de o jogo começar. Mas se o Benfica, por mérito do adversário, não conseguiu fazer o seu jogo habitual, o Porto, que de acordo com o senhor Vítor Pereira, praticou o seu futebol habitual, de posse e passe (curiosamente, a estatística diz que a posse de bola foi de 50% para cada lado, mas a estatística, como se sabe, é uma ciência inventada pela Liga e pelos jornais de Lisboa), não criou uma única oportunidade de golo em lances de bola corrida, limitando-se a marcar um livre de equipa pequena e a aproveitar uma fífia do guarda-redes. Mesmo tendo superioridade no meio-campo, a equipa do senhor Vítor Pereira foi praticamente inofensiva no ataque. Pior ainda para o senhor Vítor Pereira é o facto de, contra o futebol rupestre do Benfica, de pontapé para a frente e fé nas segundas bolas, ainda só ter ganhado uma vez, com um golo em fora-de-jogo nos minutos finais e com o adversário a jogar com dez. É natural que ontem em vez de falar sobre o excelente espectáculo na primeira meia hora e da incapacidade da sua equipa de criar uma oportunidade de golo que fosse no “salão de festas”, o senhor Vítor Pereira tenha tido necessidade de vestir o fato de macaco para pagar a dívida de gratidão aos senhores que lhe permitiram, como a muitos outros antes dele, conquistar títulos apesar de si. Ontem, fez o papel de bruto, mas aquela exibição postiça, de pau mandado, não convence ninguém. O único mérito que teve foi permitir que Jorge Jesus aparecesse como um cavalheiro, o que é raro. Nem bruto, apesar dos esforços, nem treinador, apesar do título, Vítor Pereira ainda tem de aprender a ser ele próprio, uma tarefa muito difícil quando se está habituado a ser fantoche.

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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012
O matador triste
por Bruno Vieira Amaral, Ter 11/Dez/12

Como qualquer benfiquista tenho uma teoria sobre Oscar Cardozo. É uma teoria que nasce de uma reacção espontânea. Quando oiço alguém referir-se ao paraguaio como “matador” ou “predador” desconfio. Falta a Cardozo a frieza assassina do matador e não consigo imaginar um predador sem pensar em características felinas, como a agilidade, e felino é adjectivo que não cola ao rapaz, a não ser que nos lembremos das criaturas tristes e pachorrentas, quase bovinas, que habitam as jaulas dos melancólicos circos que se instalam nos baldios lamacentos dos nossos subúrbios. Uma coisa é certa: nenhum de nós, por muito mansos que nos pareçam estes seres, se atreve a esticar a mão para o interior da jaula. É que um tigre é um tigre é um tigre. Não precisa de afirmar a sua tigritude, basta-lhe lançar-se sobre a presa e devorá-la. E Cardozo, atabalhoadamente, desajeitadamente, lá vai devorando presas, ao seu ritmo lento, aparentemente desinteressado, invisível. Porque Cardozo, dizem, desaparece dos jogos. E, depois de marcar, desaparece dos festejos. Vejam-no na capa d’ A Bola: um grito pesado, a trair a solidão funda de índio. Cardozo marca golos, não para os celebrar, mas para se aliviar de um peso assombrado que regressa sempre (vejam a capa d’ O Jogo: os colegas riem e ele é índio impassível), golos que desaparecem rapidamente da memória dos adeptos e, creio, do próprio Tacuara. É por isso que os comentadores ficam espantados quando contabilizam os golos de Cardozo (têm de consultar as estatísticas para acreditarem): o homem marca golos importantes mas não marca golos memoráveis. Outros avançados marcam golos para ficarem na história; Cardozo marca golos para que, no tempo que dura um jogo, não nos esqueçamos que ele ainda anda ali. Os adversários – as presas – normalmente esquecem-se e, então, ele é letal. É, e será sempre, um matador triste, inconsolável e, até nos festejos, apagado. Esta aparência é o seu veneno. Que fique por cá muitos anos.

 

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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012
Desentusiasmo
por Bruno Vieira Amaral, Qui 22/Nov/12

O Benfica vai ganhando jogos, está na liderança do campeonato, resta uma esperança mínima na Liga dos Campeões, Jorge Jesus reinventou a equipa após as saídas de Javi García e Witsel e, no entanto, não se sente entusiasmo, a alma benfiquista não embandeirou em arco, a alma benfiquista nem sequer embandeirou, está a meia-haste, de luto por qualquer coisa que não sabe bem identificar. E isto só acontece por termos perdido o campeonato como perdemos. Foi um valente pontapé nos tomates da nossa convicção. Perder 5-0 com o Porto de Vilas Boas é algo que mexe com o orgulho, deixa-nos feridos mas vivos, com raiva. Perder um campeonato contra uma equipa “treinada” por um Vítor Pereira, desculpem lá, é coisa para dar cabo da glândula que segrega a fé. Uma pessoa fica prostrada, sem ânimo, zombieficada. O Matic é grande jogador? Pois. Os miúdos vão aparecendo? Pois. O Lima é que é? Pois. O Jardel até se safa? Pois. O campeonato passado instalou-nos o chip da indiferença, que é a protecção espiritual contra os grandes sofrimentos e frustrações. Como é que isto se resolve? Com conquistas. O futebol do primeiro ano de Jesus devolveu-nos a alegria, aquele orgulho imaterial na identidade reencontrada, no jogar à Benfica, mas esse sentimento vago concretizou-se num título. Felicidade absoluta! Agora, já não nos chega o conforto de a equipa não se ter afundado após a venda do meio-campo ao grande capital internacional; já não chega o lugarzinho assegurado na Liga Europa; já não chega ir passando eliminatórias da Taça de Portugal; a cura para o nosso mal está no final da Primavera, na época em que se celebram títulos, e é pena que esta nossa doença da alma nos bloqueie o paladar para os regalos que os nossos jogadores nos têm oferecido.

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Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
Obsessão lagarta
por Bruno Vieira Amaral, Qua 16/Mai/12

Na há paciência nenhuma para este tipo de conversa: "a selecção é de todos, e eu apoio incondicionalmente, mas nós temos dois jogadores titulares, e vocês não e o Nelson Oliveira não devia ter sido convocado". Os clubes e a selecção são coisas diferentes. Eu apoio a selecção mesmo com o animal do Bruno Alves entre os eleitos. Se o Benfica tivesse onze jogadores com a raça do Maxi Pereira, queria lá saber que fossem do Uruguai ou da China. Mas o que ainda chateia mais é a superioridade moral dos lagartos que este ano compraram 19 jogadores estrangeiros e estão prestes a despachar os titulares da selecção para o estrangeiro. A formação do Sporting é um motivo justo de orgulho para os sportinguistas; já esta xenofobiazinha postiça (El Benfica) só para criticar o Benfica devia ser um motivo de vergonha para os sportinguistas que ainda têm no portuguesíssimo Yazalde uma das suas grandes glórias futebolísticas. E a presença de tantos jogadores formados no Sporting nesta selecção não devia ser motivo de celebração para os lagartos, é a prova insofismável da incompetência com que o clube da elite tem sido gerido: afinal, o que conquistou o Sporting enquanto esses jogadores estiveram lá? Curiosamente, um dos dois titulares do Sporting foi formado no Benfica e o clube dos viscondes pagou 3 milhões de euros por ele. Deslarguem-nos.

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
Curiosidades
por Bruno Vieira Amaral, Qua 18/Abr/12

Ontem, estavam sentados nos bancos dois ex-treinadores do Benfica contratados pelo pior presidente da história do clube.

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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
Chavões da Bola
por Bruno Vieira Amaral, Sex 13/Abr/12

Chutar para canto.

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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
"A instituição Sporting"
por Bruno Vieira Amaral, Qui 12/Abr/12

Aguardamos ansiosamente comentários dos nossos camaradas de blogosfera a isto. Mas talvez não seja a melhor altura para interromper a série chavões da bola.

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