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Catedral da Luz

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O Benfica de cada um

02.02.12, Bruno Vieira Amaral

Cada um tem o seu Benfica. E o Benfica de cada um é o Benfica com que cada um sonha, mais do que o Benfica que cada um merece. Eu tenho o meu Benfica. O Benfica que, andava eu na 2ª classe, me obrigou a fugir da escola para ver um obscuro jogo da Taça das Taças contra o Dukla de Praga. Perdemos um a zero e fomos eliminados. Até hoje lembro-me das palavras do narrador do jogo: “uma perdida infantil de Nunes.” E continuei a ser do Benfica. Continuei a ser do Benfica mesmo após aquela noite em que as chuteiras dos nossos jogadores ganharam vida e em que o Veloso não soube domar a dele, mesmo após o enxovalho de ver o Porto a ganhar cinco a zero no Estádio da Luz, mesmo após a tragédia de Vigo e outras catástrofes menores às mãos de corsos e restante pirataria, mesmo após o cabrão do Sensini me ter deixado à beira de um ataque cardíaco ao marcar o golo que nos impediu de atingir mais uma final europeia, mesmo após os anos desérticos passados no Vale da morte continuei a ser do Benfica. Em todos esses momentos fúnebres e dolorosos vi sempre a Luz ao fundo do túnel (de amarelo-Prosegur e não de amarelo-girassol): uma cueca do Miccoli a um pobre defesa do Beira-Mar, uma rabona do Aimar a isolar o Suazo, a única finta do Cardozo, os cruzamentos do Vítor Paneira, a epilepsia genial do Poborsky, aqueles três golos do João Pinto, uma vitória em Anfield para silenciar os melhores adeptos do mundo, a alegria de ver Claudio Paul Caniggia a vestir a camisola do Benfica, o Rui Costa, o Preud’Homme. Este é o meu Benfica, o Benfica capaz de me entristecer quando tudo me corre bem, o Benfica capaz de me animar quando tudo me corre mal. Somos todos do Benfica, é verdade, mas um amor assim não admite partilhas; é egoísta, não é gregário. Estar num blogue colectivo de apoio ao Benfica é uma contradição. Só que este não é um blogue colectivo. É um blogue individual com vários benfiquistas e, como eu escrevi no início, cada um tem o seu Benfica. O meu Benfica é um conjunto de fragmentos esparsos que colo à minha maneira. É uma ideia individual, única, irredutível e que, quando por acaso se junta às outras ideias individuais, únicas e irredutíveis (no estádio, no táxi de outro benfiquista ou num blogue) cria uma ilusão de transcendência colectiva consagrada no E Pluribus Unum que não passa disso, de uma ilusão, bela, extática e fugaz, como são todas as ilusões. Por isso, um benfiquista pode (e deve) amar o Benfica e desprezar todos os outros benfiquistas. Porque aquilo que ele ama é apenas seu, é um mistério inacessível aos outros. Não se pode medir e, como tal, não se pode comparar a intensidade da fé. Dois crentes não discutem sobre qual dos dois acredita mais em Deus. Podem discutir quem é que vai mais vezes à igreja, quem é que pratica mais boas acções, mas nenhum se atreve a dizer que acredita mais do que o outro. Assim é com os benfiquistas. Podem amar o mesmo clube mas, lá no fundo, são aconchegados pela certeza de que o clube que amam é só deles. Eu não amo o Benfica (essa entidade mística e impessoal). Eu não amo o nosso Benfica (coisa que não existe e que, se existisse, eu abominaria). Eu amo o meu Benfica.

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