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Catedral da Luz

Catedral da Luz

Os benfiquistas têm memória curta

02.10.12, Henrique Raposo

Não morro de amores pelo homem que governa a nação neste momento, mas também não sofro de amnésia. Antes de Vieira, o Benfica era um acamado. Como dizia Mourinho há dias, o Benfica tinha perdido a respeitabilidade europeia. Para as gerações de adeptos europeus da Era Champions, o Benfica metia tanto medo como o Bastia, Bolonha ou Bolton. Continuámos a ter um ego de ave de rapina, mas os outros viam bem a nossa condição: éramos uma ave de capoeira, um galináceo a sonhar com voos picados. O gozo de Drogba não veio do nada. Como é que chegámos a esse ponto? Entre 1994 e 2010, a nação atravessou um deserto. "Ah, então e o campeonato de 2005?", pergunta o sócio impaciente. Mas alguém tem memória da equipa de Trapattoni? Em 2005, fomos campeões sem saber como, fomos campeões devido aos feitiços de um profeta angolano coxo . Não, meu amigos, a travessia do deserto não durou nove anos, mas dezasseis. Foram as equipas de Jesus - o resultado final do trabalho de Vieira - que acordaram o clube. 2010 foi especial, porque fomos campeões com a melhor equipa desde 1993-94. 

Já ninguém se lembra do tempo dos Paredões e dos Pringles? Já ninguém se lembra dos primeiros anos pós-1994, os anos Artur Jorge e pós-Artur Jorge? Nestes tempos, o Benfica era uma espécie de Sporting em tamanho XXL. Tínhamos uma equipa de remendos - Hassan, Nelo, Tavares, Tahar (podíamos fazer um filme de terror com este casting). Não havia raça. Não havia talento. Não havia Benfica. Sem a genica do João Vieira Pinto e sem a carapinha do Preud'Homme, estou convencido que teríamos ficado mais vezes em sexto lugar - a proeza de 2000/01. Já ninguém se lembra desta época? Eu, por acaso, não me lembro. Aliás, tenho poucas memórias desses tempos. Sei que tivemos no lugar de treinador um escocês com cara de garrafão e um egípcio chamado Manuel José. Lembro-me que tivemos capitães inconcebíveis, reformados espanhóis no meio-campo, pensionistas ingleses no ataque, operários galeses na ala esquerda e, pronto, é só isso. Até à equipa do Aimar e Saviola, não tenho nada na cabeça sobre o Benfica, e garanto-vos que via todos os jogos.

Por muito que custe à malta da memória de passarinho, foram as equipas de Jesus/Vieira que devolveram o punho cerrado ao terceiro anel. Dezasseis anos depois, eu voltei a viver o Benfica. Durante a travessia do deserto, acompanhei o clube por dever, em piloto automático. Era um zombie, um zombie glorioso, mas um zombie. Com Vieira e Jesus, voltei a ter fé, voltei a sentir aquele electricidade das papoilas saltitantes e não sei quê. "Mas Vieira só tem dois campeonatos e Jesus um", grita o sócio impaciente. Pois, mas antes de Vieira e de Jesus, o Benfica era um Bastia com a mania das grandezas.