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Catedral da Luz

Catedral da Luz

O benfiquista terminal

23.10.12, Henrique Raposo

 

Além de ter revelado um Kulkov levezinho, o menino André Gomes, o jogo com o Freamunde mostrou que a nação quer mesmo chegar ao Jamor. Ainda bem. O Jamor é o Jamor, e o meu benfiquismo precisa de Taça. Há uns anos, depois de ganhar o caneco, o nosso Preud'Homme disse qualquer coisa como isto: "não compreendo esta coisa portuguesa de desprezar a Taça em relação ao Campeonato, para mim são iguais". Confesso que, na altura, estive para beijar a carapinha do belga, porque é isso mesmo: ganhar a Taça é quase tão bom como ganhar o Campeonato. A alegria é a mesma, ou até superior, porque fica concentrada naquele shot final. O Campeonato é uma longa noite de imperais, que, às vezes, pode ser chata. A Taça é um bagaço: pode ser mau, mas nunca é chato.

Sim, o meu benfiquismo precisa de Taça, até porque foi tecido nas finais do Jamor. O meu primeiro jogo de sempre foi o Benfica/Sporting da final de 1987 . Dois grandes golos do Diamantino garantiram o caneco, naquela que foi a última dobradinha da nação. Isto quer dizer que ando a dar azar há vinte e tal anos, mas avancemos. 1987 foi apenas a primeira de uma longa série de finais da Taça (com ou sem Benfas): acordávamos cedo, levávamos o farnel e uma bola para a mata do Jamor, e depois lá íamos ver a final. A minha doença chamada benfiquite terminal foi desenvolvida ali, sardinha a sardinha, pimento a pimento, bifana a bifana, jogo no pelado após jogo no pelado. E até posso dizer que comecei a ir para o topo sul do Jamor antes de começar a visitar o Estádio da Luz. Uma heresia boa. 

Naquele topo, vi em 1993 a melhor equipa da nação desde os anos 60: Neno, Veloso, Mozer, William, Schwarz, Paulo Sousa, Vítor Paneira, Rui Costa, João Pinto, Futre, Rui Águas. Ganhámos por 5-2, e podiam ter sido 10-5 . Aquela época, 1992-1993, foi uma porcaria e acabou no célebre verão quente. Mas aquele jogo encheu-me de moral. Depois daquela vitória, o facto de termos perdido o Campeonato em Aveiro por causa de um brasileiro fininho chamado Dino já não importava. O Jamor redime tudo, salva mesmo uma época, e dá moral para atravessar o maldito verão. E, atenção, o Jamor também inverte tudo. Aliás, posso dizer, com todo o rigor científico, que uma equipa campeã deixa de o ser quando perde a final do Jamor (foi o que aconteceu à nação em 2005). O Jamor tem macumba. E, pronto, só queria dizer que gostava muito de ver o menino André Gomes na final daqui a uns meses.