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Catedral da Luz

Catedral da Luz

Benfica e o medo de ser feliz

07.03.13, Henrique Raposo

A malta está contente com o primeiro lugar e já esqueceu o jogo de domingo, o pior da temporada, o pior jogo na pior altura possível. Não perdemos a chance de ultrapassar a república norte-coreana, porque os avançados do Beira-Mar confundiram a bola com a atmosfera num par de vezes. Foi um jogo deprimente, faltou a tal estaleca de campeão. No final do jogo, a minha mulher não percebia a irritação, "mas não ficaste à frente dos outros?", fiquei, mas passei com um 10 e aquela era matéria para um 20. 

A treta dos jogos mentais não é treta. No domingo, assistimos a um bloqueio mental em directo, parecia um big brother para psicólogos. Até chegar ao golo, a equipa carregou e jogou com normalidade. Alcançado o golo que garantia uma coisa nova e importante, a equipa bloqueou. Ficou sem saber o que fazer, como se fosse um tenentezinho a fazer as vezes do general. De um momento para o outro, a equipa perdeu a identidade, ficou com medo de estar em primeiro, ficou com medo de ser feliz, a doença do Benfica das últimas duas décadas. O ditado diz que "candeia que vai à frente alumia duas vezes", e é verdade. Porque é muito difícil chegar ao topo e, pior, é ainda mais difícil manter os dois pés no topo. Estar no topo dá vertigens de felicidade que nem todos aguentam. E a tal mística surge quando se assume a normalidade deste estado eléctrico de contentamento. A mística transforma uma equipa numa junkie de felicidade. Olhem para Ferguson: tem a idade de um elfo, mas parece um puto a pular, a mascar, a festejar. É a mística, é não ter medo de ser feliz, é ser um dependente dessa felicidade.

Depois de vinte anos de humilhações, nós ainda não recuperámos a tal mística. Temos medo. Quantos benfiquistas ficaram secretamente felizes com a eliminação nas meias-finais da Liga Europa, pois essa eliminação livrou o clube de mais um jogo com o Porto? Muitos. Foram demasiados anos, quase uma geração, de erros e parvoíces que conduziram a equipa a um poço. Mas, lá está, recuperar implica ganhar, mesmo quando se ganha mal, mesmo quando se tem a estrelinha como segundo guarda-redes. Se formos campeões este ano, conseguiremos um segundo título em quatro anos, ou seja, podemos estar perante o início de uma nova fase. Os nervos do Papa norte-coreano indiciam isso mesmo.