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Catedral da Luz

Catedral da Luz

O Benfica é o D. Sebastião em chuteiras

14.03.13, Henrique Raposo

A TV do Glorioso tem um segmento espiritual que faz lembrar a literatura de auto-ajuda. É sobre a mística, e está cheio de vozes que cantam as habituais loas: "o Benfica é o maior", blá-blá, "isto nasce connosco", pois, pois, "nós sentimos de maneira diferente", ui, ui, "a mística não se explica". Em todo o seu esplendor, ali está o sebastianismo que deu cabo do Benfica. Perdido o império real (início anos 90), os benfiquistas refugiaram-se nesta espécie de Quinto Império com cachecol, gorro e almofadinha pra bola. Em vez de enfrentarmos as fraquezas concretas do clube, inventámos uma grandeza sebastianista que invoca um direito divino à vitória. Somos os maiores, porque sim, porque sentimos de maneira diferente, porque, ora essa, a mística não se explica, é uma chama eterna.

Nos anos negros, andámos num corrupio de treinadores, porque pensávamos que bastava trocar de míster para que a grandeza regressasse. A mística, essa força que escapa ao entendimento, ao trabalho e ao mérito, só precisava de um intérprete que falasse sebastianês. Se encontrássemos o treinador certo, a mística desceria das brumas e entraria no campo através do corpo do treinador escolhido. Com um "treinador em condições" voltaríamos a ultrapassar o Porto, "este ano é que é, este gajo novo é que sabe, o Porto está lixado". O efeito final deste rodopio foi a eleição de um bandido para a presidência. Mas, verdade seja dita, a paranóia sebastianista não terminou com a saída de Vale e Azevedo. Trocámos Mourinho por Toni. Porquê? Ao que parece, Toni era um D. Sebastião de bigodinho; o génio que hoje assombra a Pérsia tinha a magia inexplicável da "chama imensa" e, por isso, desprezámos a competência de Mourinho. E há mais. No verão de 2007, Vieira despediu Fernando Santos logo após a primeira jornada. No dia seguinte, li coisas como "Camacho vai acordar o Benfica". Parece impossível, mas chegámos a ver D. Sebastião num espanhol.

"A mística não se explica", diz a malta. Lamento, mas não é assim. A mística explica-se, sim senhora. A mística começa num treinador com tempo para pensar e acaba num balneário com históricos. No fundo, a mística precisa de tempo e de trabalho. A nossa mística passou da geração do Eusébio para a geração do Shéu e acabou na geração do Paneira. Quando Artur Jorge despediu os últimos dos moicanos (Paneira, Isaías, etc.), a mística perdeu-se, ou seja, o balneário do Benfica passou a ser uma tabula rasa. Incapazes de compreender esta coisa tão simples, nós não tivemos calma para voltar a construir um balneário. Querem exemplos? Robert Enke chegou a ser capitão com apenas dois anos de clube. Felizmente, o clube recuperou o tino e, hoje, temos um treinador com anos de casa e um plantel com um número aceitável de brasonados. E, mais importante, Maxi, Luisão, Cardozo e Aimar estão a passar o facho a uma nova geração (André Gomes, André Almeida, Matic). Portanto, não me venham com pressas e fezadas sebastianistas. A mística é trabalho.